quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


Assim como estou horrenda vida!
Sozinha, porque tu me deixaste,
Sem sentir nenhum mísero remorso, se foi,
E assim contigo foi-se;
Ah sim, foi-se a alma,
E com ela todos miraculosos sentimentos de amor...

Deixaste somente as tristezas da desilusão e da solidão,
Que se fundem com a saudade trazendo a angústia tormenta,
Que me leva as noites de sono;

Em pensar que sonho em vão...
O que vivenciamos um dia no passado,
Hoje somente existe numa profunda recordação

No meu exorável coração!

Oh, Destino cruel,
Por que tu me deixaste a amargura?
Tiraste do meu seio talvez o único remédio desta vida féu...
Quem sabe a resolva a doçura de um amor sem fim?
Que em exuberante contemplo se acabe o tédio...

Então chegaste,
Em mocidade,
Aproveitaste de minha ingenuidade
Um amor que nem bem surgiu e logo se fez ir
Por alguém que interferiu,
Coração parou de sorrir
E a paixão só permaneceu em mim...
Desilusão de um amor que não eras para ser meu...

Que nunca foras meu!
O amor,
Doce agonia,
Triste alegria,
Saudade vazia
Satisfaz sentimento
Do pequeno momento da recordação,
Mantida pela emoção,
Apreendida pelo coração...

Clamar vida ou morte?
Viver para vencer
Ou morrer para esquecer?
Melhor lutar para realizar
Ou lutar para evitar?

Saber a resposta
A não ver a derrota,
Desatar este nó
Do andar só,
Amarga afeição
Descoberta a ilusão;
Loucura e fissura...

Castigo do destino,
O que fazer para merecer tal?
O final,
Trágico naufrágio,
Afundado,

Afogado!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A gravidade de ser



 Trafegava entre cômodos e pensamentos. Sentimentos atravessavam-me e gritavam na minha alma latente.

Naquele primoroso instante, por um acidente de percurso, vi-me refletida no espelho. Deparei-me com um rosto moço, formoso, de traços afáveis e pele viçosa. As feições, contudo, eram enigmáticas; sustentavam um olhar tão denso e impenetrável que eu mal conseguia me encontrar na vastidão do meu próprio eu. A imagem diante de mim era nítida, mas a identidade que deveria habitá-la permanecia um mistério...

Por um ínfimo espaço de tempo, a insanidade parecia possuir-me. Procurava incessantemente, dentro de mim, respostas que iam além da capacidade humana de aclarar. Quem sou? Por que existo? Para que existo? Por quanto tempo hei de existir?

Os meus olhos não conseguiam dizer quem eu era, tampouco o que queria. Ao fechá-los, podia vagar pelo meu abarrotado e cavo mundo interior. Ainda assim, era inútil desembaraçar meus pensamentos abstrusos e decifrar os desejos do meu coração.

Porém, tinha a leve impressão de destoar da maioria normatizada. Não podia explanar esse sentimento forte e impreciso que vivia no meu ser desde a gênese. Havia, ainda, uma energia dissonante em meu âmago, que se exteriorizava ao mundo.

Sem compreender o sentido dentro de mim, norteava-me por parâmetros e estereótipos da sociedade moderna, por vezes precisando ocultar, adormecer e esquecer parte do que habitava minha alma dúbia. Sentia-me presa a um movimento de 360 graus, sob uma força gravitacional que me arrastava de volta ao mesmo ponto de partida, fazendo-me reviver os momentos, os lugares e as mesmas dores.

Afastei-me do espelho, caminhei até meu leito e me sentei na cama, entregue à meditação. Mergulhei nos sentidos: será que tudo acontece porque perseguimos inconscientemente o passado, atraindo repetições infindáveis? Ou ainda não fui capaz de compreender a lição e a vida insiste em me trazer tudo novamente até que se complete esse ciclo, permitindo-me, enfim, conhecer a mim mesma para viver de acordo com meu imo?

Foi então que percebi estar na casa onde havia passado parte da primeira infância. Aquele reconhecimento abriu uma fresta em minhas reminiscências e me permitiu resgatar sensivelmente pedaços imaculados da infância, quando tudo parecia gigante e fascinante. Pude sentir o gosto da simplicidade e o prazer da brincadeira, ao contemplar a imaginação de uma criança repleta de sonhos e esperança, quando a construção de seu castelo ainda permanecia incólume.

Sentia-me feliz por ainda ver essa criança, mesmo nas reminiscências nostálgicas, e por perceber que, entre as ruínas desse castelo, ainda havia alicerces sobre os quais eu poderia reconstruí-lo... Talvez esse fosse o primeiro passo para meu reencontro.

Todavia, vez ou outra, o medo açoitava e assombrava a criança frágil e bucólica. Os monstros começavam a saltar da imaginação, assumindo formas reais de seres humanos. O medo de ser machucada jugulou a inocência e a leveza pueril que havia em mim. A armadura pesou antes do tempo; os dedos que moldavam castelos de areia tiveram que se fechar em punho. Fez-se guerreira, deixando o castelinho de sonhos no chão para travar a guerra. Mas, como toda guerra é sangrenta e dolente, sinto vontade de regressar aos monstros da minha imaginação, onde o medo era abstrato e inofensivo.

Quisera eu ser gente grande para me defender e lutar; criança para viver e amar!

O que poderia aquele espelho refletir agora, sob a luz gasta e suspensa do quarto, nessa penumbra fria onde as sombras distorcem as formas, senão o avesso daquela imagem prima: um rosto enfadonho, um coração despedaçado e uma alma quebrantada?

Levantei-me, olhei para o infinito daquela madrugada pela janela do meu quarto e, tomada pelas marcas que a convivência havia deixado em mim, discursei em tom de veemente protesto, dando voz às sequelas de relações com seres tão superficiais, incapazes de acreditar nos sonhos, tampouco de sentir o mais tênue amor ao próximo:

— Seres sem história que lhes seja própria, robôs de destino predeterminado por um capitalismo de afetos anárquicos e egoístas. Apáticos, sorumbáticos e ínvidos! Não partilham do cálice alheio, mas também não desfrutam da afeição leal e desinteressada. Nunca terão a graça da autenticidade. Jamais poderão ser singulares. Não querem, não podem e não sabem o esplendor de viver intensamente. Quem é leviano não sente; camufla-se na aleivosia.

Depois do desabafo, voltei-me para a pequena cama daquele quarto simplório, pousei a cabeça no travesseiro, cerrei os olhos e decidi:

— Ora, não sou eu quem pretende findar meus dias nessa morbidez tediosa, correndo para não ser eu, sentindo como se não sentisse e fugindo de viver minha própria história... Se acaso não conseguir saber quem sou, ao menos terei amado com imensidão e vivido como ninguém...

A paz me invadiu naquele instante de circunspecção e autoafirmação. Enquanto a mente exausta se rendia ao silêncio da noite, adormeci, levando comigo a esperança de reencontrar, ao despertar, os caminhos que me conduzissem a mim mesma...

 




sábado, 26 de outubro de 2013

DESENGANO...





Em momento de desesperança, fragilidade e aflição, descuidei do tato de percepção...
Ceguei diante tamanho sofrimento e escancararei os portões de minha fortaleza,
Para minha tristeza, permiti sem qualquer ponderação, incógnito adentrar na minha vida de emoção...

Figura de aspecto simplório, transbordando ares de genialidade,
Sob máscaras de teologia, utilizou-se de préstimos de trato fino, envoltos em atitudes comoventes com toque de cavalheirismo e esbajando presentes...

Como uma miragem parecia solução para tanta sede no oásis, mas conforme a alucinação se esvaia, a sede só crescia...
Ardilosamente emaranhou-me na teia doentia de uma mente perigosa,
Tornou-me escrava do doce veneno que em princípio adoçou meus dias e ao final me intoxicou de ressentimento e desconfiança,
Da minha honra ilibada pairou o anseio de represália infindável, transformando uma essência sábia repleta em improbidade...
Incutiu-me a mágoa depascente, refletindo atitudes temperamentais de uma sensibilidade oriunda e um tanto proeminente...

Então a camuflagem se dissipou em meios de aleivosias, perfídias e devassidão,
Ser incapaz de semear o amor, o respeito e a cumplicidade,
Ser de atração da discórdia, do rancor e da fatalidade...
Serpente peçonhenta com formato angelical,
Artista em simular sua verdadeira identidade...
Só quem foi vítima de tal ser pode sentir a frustração de conhecer a fundo como o homem tem o poder da iniqüidade nas mãos...
Não o subestime, consegue envolver o mais aclarado e aniquilar os tênues de personalidade...

Todavia, meu âmago é de alicerce sólido, abala, porém, se mantém cravado nos meus preceitos,
Não será um projeto do mal a me subjugar, no coração de uma mulher existem mais magnitudes e subterfúgios que se possa arquitetar...

A ingenuidade que me defraudaste um dia será seu leito eterno de desassossego nas noites desoladas,
E a minha dignidade acutilada será seu pranto de angústias arrastadas...
Nesta minha trajetória o sujeito indeterminado não será mais percalço, um fulgor retorna a me abrilhantar, já não há mais espaço para sofrimento me apoquentar, estas coisas já cessaram,

O desengano ao desconhecido agora é passado abandonado...


(by Ingrid Rayane)...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Antítese do meu Autorretrato




Advogada. Libriana. Guerreira. Geniosa. Sonhadora. Autêntica. Excêntrica por natureza. Forte como uma rocha. Frágil como uma flor. Feliz em imaginação. Sagaz em razão. Ingênua em emoção. Altiva à moda narcisista. Ego nato de artista. Egoísta em matéria. Altruísta em sentimentos. Sensível aos sofrimentos. Solidária à miséria. Odeio o carrasco. Desprezo o hipócrita. Indolente com o inimigo. Nobre com o amigo. Adoro o que é exótico. Luto pelo utópico. Fé suprema no Onipotente. Eterna sorridente. Criança para sempre. Esperança em paz. Praticar o mal, jamais. Aprecio a beleza. Encanta-me a pureza. Admiradora das artes. Almejo baluartes. Intensa no prazer. Apaixonada no viver. Um viver livre, sem preceitos e preconceitos...

Não sou apenas mais um rosto bonito e um corpo esculpido. Estereótipos não me definem. Aparências não passam de mitos. Sou mais do que a sociedade possa descrever. Duvidas? Julgas-me superficialmente. Paga para ver, que garanto surpreender-te...


SER PARDAL E NÃO CANARINHO...





Hoje, dia treze de dezembro do ano de dois mil e doze (13/12/2012), ouvi uma sábia constatação sobre minha pessoa de quem eu menos poderia esperar. Se o que foi dito foi distorcido aos olhos de quem disse ou de quem escutou não é importante. O importante é o que está além do que realmente parece ser. 



Deixemos de cantilena, a frase dita foi a seguinte: “Não se pode querer ser canarinho quando se é pardal”. Ora, não precisa de nem mais uma letra para descrever a minha essência. 



Numa simples frase sem qualquer importância manifesta, sobrestive para ponderar o que tenho feito comigo, me prendendo a preceitos sem embasamentos, me torturando para mudar aquilo que sou, tão somente para ser uma pessoa ditada “normal”, ser aceitável entre família, amigos, relacionamentos amorosos, enfim, ser aceita em uma sociedade no geral, deixando de ser taxada de “esquisita” por alguns, superficial para outros e “louca” pela maioria. 



Mas o que seria ser normal ou ser louca? Qual estimação tem essa sociedade coalhada de podridão, de hipocrisia, de preconceitos, de deslealdade e de maldade diante da busca incessante de ser exclusivamente eu? 



O canarinho na gaiola não sofre com seu fadário, até canta, porque nasceu para ficar aprisionado, não saberia sequer sobreviver com a liberdade. O pardal ao se ver cativo pode até desistir de piar e acomodar-se nessa condição, mas vai sofrer, se entristecer e amargurar-se até morrer. É exatamente isso que tenho feito todos os dias da minha vida, me aprisionando em um casulo de conceitos, preceitos de como devo viver. Relutando contra meus anseios, desejos e sonhos em prol de quem nunca será feliz por mim. A minha felicidade somente eu posso senti-la e vivê-la. Ninguém será feliz no meu lugar. 



Então me submerjo em um medo ao qual me foi inserido, que não se originou de mim. Para quê então me respaldar em agradar uma sociedade que nem ela ao menos consegue deliberar o que é certo ou errado, o que é belo ou feio? Sociedade que apenas segue tendências do seu tempo. 



Passarinho que aprende a voar jamais será passarinho de gaiola. Liberdade não é para os que a ambiciona, mas para os de natureza livre. Liberdade algo tão subjetivo e, no entanto, tão similar. 



Liberdade na minha concepção não está no palavrear promíscuo em que a “sociedade” atina e sim no que é voar no meu subjetivismo. 



Voar... É cantar quando a música toca; 


Voar... É me envolver com a dança conforme o ritmo; 

Voar... É sorrir quando estou feliz e chorar quando estou triste; 

Voar... É dar boas gargalhadas com os amigos e tirar melhores gargalhas deles com palhaçadas;

Voar... É falar palavrão quando dá vontade;

Voar... É me entregar as paixões sem avaliar o preço ao qual irei pagar; 

Voar... É gritar “Eu te amo” quando o calor da paixão queimar no meu peito; 

Voar... É não temer o erro e se eu errar, dane-se, é essência do ser humano e a crítica não vai mudar nada; 

Voar... É andar e correr sem medo de cair e se eu cair que tenha um braço seja ele forte ou fraco para me levantar, pois o que vale é a intenção do próximo; 

Voar... É dizer o que penso sem retaliações;

Voar... É ter atitudes ousadas mesmo que implique em grandes responsabilidades; 

Voar... É ser irreverente mesmo sabendo que me custará a inveja alheia; 

Voar... É dar aquele abraço forte em quem eu tenho apreço e beijar a quem eu gosto; 

Voar... É não ter receio de lutar pelo que eu acredito, assumir os meus desejos e meus sonhos mais ocultos e mais absurdos que pareçam ser;

Voar... É ser criança, adolescente, mulher ou idosa, me adaptando conforme as circunstâncias;

Voar... É dar o meu melhor para um mundo melhor; 

Voar... É agir com solidariedade e humanismo;

Voar... É ter esperança no impossível; Ser tão boa ao ponto se me tornar piegas; 

Voar... É amar os bichos como amar um ser humano; É agir com o instinto para sobreviver e com racionalidade para conviver; 

Voar... É poder me vestir num dia de rainha e noutro de plebeia e que nem por isso serei melhor ou pior que ninguém; 

Voar... É ser cada dia uma personagem, num dia a Cinderela, noutro a Bruxa... Não importa se um dia serei a esposa e noutro a amante...Se serei duas, três, quatro ou dez mulheres numa só... Se serei mulher ou mulheres de um mesmo homem ou de vários, contanto que eu não perca a lealdade... Espero que seja apenas um, que esse um me ame livremente e que não me faça escolher entre tê-lo ou ser eu, porque a escolha não irá afagá-lo... 


Que eu possa fazer a arte pedaço da minha alma e possa compartilhar àqueles que se aprazam dela... Não importa se seja cantando, dançando, compondo, escrevendo, atuando, interpretando ou até mesmo desenhando, mas que seja parte real do que sou... 



Ser livre é ser tão somente eu. Ser eu é ser pardal e não um canarinho...